Apesar de Sarte, tal como
Russel, a sua “alma gémea” inglesa, estabelecer uma relação entre liberdade e
conhecimento, este vosso amigo por vezes sente-se muito confortável na
ignorância. Dito de forma mais simples: há coisas que mais vale não sabermos.
Vem este meu sentido lamento por uma
notícia que quase me passava desconhecida.
Quis a desdita que atentasse nela e agora, como Virgílio
Ferreira tão bem escreveu, carrego o fardo do conhecimento. Foi um
maldito segundo de atenção á noticia que passava na rádio que deitou tudo a
perder. Fui ouvindo de estupefação em estupefação.
Mas vamos devagar, que esta notícia,
qual remédio amargo, tem de ser dada lentamente.
Proponho três adivinhas que
ajudarão a compreender “ a coisa”:
Nada?
Pois, num mundo perfeito, não
tinham mesmo nada em comum.
Mas será que vivemos num mundo
perfeito?
Segunda pergunta:
Pois… é aquela conversa do mundo
perfeito, estão a ver?
Agora, vejam lá esta:
Finalmente a quarta pergunta:
Pois saibam os meus amigos que
estas músicas são de cantores que fazem parte da exclusiva e muito prestigiada Chevalier
de l'ordre des arts et lettres francesa. Para minha incompreensão, o Tony Carreira foi
distinguido em Janeiro com tamanha honraria cutural.
E é saber isto que me faz azia quer
no cérebro quer na inteligência.
Porquê ele e não o meu amigo
Inspetor Frederico de Menezes que é muitíssimo mais culto? E quanto a Rui Veloso, Madredeus, António
Pinho Vargas, Ana Moura ou mesmo os enormes Xutos e Pontapés? Augustina ou Lobo Antunes que por duas vezes
falhou à tangente o Nobel. Porque não se lembraram deles?
Que imagem da cultura portuguesa
terão estes franceses para distinguirem o Tony Carreira com tamanha Ordem?
Tony Carreira ao lado de Dylan,
John ou Bowie? Jorge Luis Borges, Sartre, Marcel Marceau, Václav Havel, Meryl Streep, Bono e… e… Tony Carreira?
Recusou o embaixador em frança
aceder ao pedido do nosso Tony em receber tal honraria na Embaixada. De pronto
estalou a polémica e o pobre homem foi cruxificado nos artigos de opinião. Quanto
a mim fez muito bem, o Embaixador. Ordem da cultura francesa para o Tony?
Sério? Ninguém está louco?
Um pouco de decência, senhores. Bem
sei que somos cada vez mais um país de lojas de trezentos, de cultura feita a
ver telenovelas popularuchas e sapiência de reality shows. Que as nossas pérolas públicas andam a
transformar-se em apátridas privadas, já sabíamos. Mas tudo tem o seu limite.
Tony Carreira cavaleiro das artes e letras francesas? Mas anda tudo louco por aqui? Será que batemos mesmo no fundo? Tornámo-nos
irremediavelmente um país de bimbos?
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